Ricardo Borges, Psicólogo e Psicanalista
Existe um instante, quase sempre discreto, em que a vida deixa de fazer sentido. Não é um instante dramático. Não vem anunciado por nenhuma catástrofe visível. É antes um pequeno desalinhamento: a xícara na mão, o dia cumprido à risca, tudo em seu devido lugar, e ainda assim uma sombra de falta que nenhuma explicação dá conta de cobrir. A angústia não bate à porta fazendo alarde. Ela se instala como quem já morava ali. E o que ela revela, sem mentir e sem negociar, é que uma versão de nós mesmos chegou ao fim de sua capacidade de explicar o que sentimos.
É nesse ponto, exatamente onde a linguagem tropeça, que a escuta pode começar.
Há uma crença antiga e cômoda de que sofrer é um desvio de rota, um erro a ser corrigido para que a vida volte ao seu curso normal. Mas talvez o sofrimento não seja um desvio. Talvez seja a única voz honesta que ainda resta quando todas as outras já disseram o que se esperava delas.
Escutar essa língua baixa é um ofício antigo, tão antigo quanto o desejo humano de ser compreendido. Não se trata de decifrar o outro como quem resolve um enigma, nem de oferecer a ele um caminho já pavimentado. Trata-se de abrir um espaço onde algo até então mudo possa, enfim, tentar se dizer.
A angústia não chega fazendo barulho. Ela se instala no silêncio, quando tudo parece em seu lugar e, ainda assim, algo falta. É um vazio que não pede para ser preenchido, apenas reconhecido. Não mente, não disfarça, não negocia. Apenas revela.
A maior parte de nós aprende, cedo, a tratá-la como inimiga. Tentamos distraí-la, argumentar contra ela, esperar que passe sozinha. Mas ela raramente passa sozinha, porque não é um mal-estar aleatório: é a única experiência psíquica que não mente sobre o que está em jogo. Por isso, em vez de tentar extingui-la, talvez valha mais a pena aprender a lê-la, como quem aprende a ler um sinal em uma língua que ainda não domina.
Entre uma palavra trocada, um nome esquecido, uma chave perdida ou um gesto que escapa ao controle, existe uma linguagem discreta que nem sempre percebemos. Talvez a vida cotidiana seja menos feita de acidentes do que de pequenos sinais. E, quando aprendemos a escutá-los, descobrimos que até o mais simples esquecimento pode carregar uma história que ainda espera ser contada.
Nada disso pede interpretação imediata, muito menos um diagnóstico apressado. Pede apenas atenção, o tipo de atenção que a vida corrida raramente permite.
Um sintoma raramente é o que parece ser à primeira vista. Ele se apresenta como incômodo, como repetição, como aquilo que insiste em voltar mesmo depois de resolvido em aparência. Mas por trás dessa insistência há sempre uma história incompleta, uma frase que ficou pela metade e que, de algum jeito, ainda espera para ser terminada.
Escutar um sintoma não é buscar eliminá-lo o quanto antes. É dar a ele o tempo que talvez nunca tenha tido para se dizer por inteiro.
O desejo não é uma lista de vontades a cumprir. É antes aquilo que nunca se satisfaz por completo, e é justamente por isso que move. Um desejo plenamente realizado deixaria de ser desejo. A clínica não tenta preencher essa falta, porque ela não é um defeito a corrigir: é o que sustenta a vida em movimento.
Em análise, fala-se de um jeito diferente do que se fala no resto da vida. Não há tópico certo, nem ordem obrigatória, nem necessidade de fazer sentido antes de dizer. É justamente quando a fala escapa do controle habitual que ela começa a revelar algo. A palavra, aqui, não serve para explicar. Serve para abrir caminho.
O que o silêncio sustenta.
Atendo pessoas que atravessam momentos em que a vida, por alguma razão, deixou de fazer o sentido de sempre. Não ofereço um caminho pronto nem um diagnóstico apressado. Ofereço um espaço onde aquilo que ainda não encontrou palavra possa começar a se dizer, no tempo que isso levar.
Minha formação segue a orientação freudiana e lacaniana, e minha experiência atravessa contextos bem diferentes: a clínica particular, a psicologia hospitalar, o home care, os cuidados paliativos e a formação institucional. Cada um desses lugares me ensinou algo sobre a escuta que os outros não ensinariam sozinhos.
O primeiro encontro é uma conversa, não uma avaliação. A partir dela, definimos juntos a frequência mais adequada, presencial ou online. Não há um número fixo de sessões prometido de antemão: o tempo de cada processo é definido pelo que cada processo pede.
Atendo presencialmente em Higienópolis, São Paulo, e online para todo o Brasil. A modalidade não muda o rigor do trabalho, apenas o espaço em que ele acontece.
A clínica particular é o centro do meu trabalho, mas a escuta que sustento também atravessa outros contextos. Cada área abaixo pode ser aberta para o texto completo.
Em contexto hospitalar, a escuta acontece ao lado de outros cuidados, entre exames, procedimentos e rotinas que nem sempre deixam espaço para a palavra. Ainda assim, é ali, muitas vezes, que ela mais se faz necessária.
Depois de um acidente vascular cerebral, reconstruir a fala é também reconstruir um modo de estar no mundo. Acompanho esse processo com paciência técnica e escuta, sabendo que cada palavra recuperada carrega mais do que comunicação: carrega identidade.
Em cuidados paliativos, não se trata de buscar uma cura que já não é possível. Trata-se de oferecer um espaço onde a finitude possa ser dita sem pressa e sem verniz, tanto para quem atravessa a doença quanto para a família ao redor.
Antes da psicologia, atravessei anos em ambientes corporativos de alta exigência, em áreas como treinamento, experiência do cliente e liderança de equipes. Aprendi ali, de perto, que existe um preço subjetivo para o desempenho, e que esse preço raramente aparece em nenhuma métrica.
Hoje, esse conhecimento sustenta o trabalho que faço com empresas: formação de lideranças, prevenção de riscos psicossociais e espaços de reflexão sobre burnout e pressão no trabalho, sempre a partir de uma escuta clínica real, não de um discurso motivacional genérico.
Converso com instituições de ensino, equipes multidisciplinares e ambientes corporativos sobre temas que atravessam a vida contemporânea: sofrimento psíquico, pressão acadêmica, luto, diversidade e as relações de trabalho de hoje. Cada palestra é construída a partir do contexto específico de quem a recebe.
O Entre Laços é um projeto social criado em 2019 no MedEnsina, cursinho popular ligado à Faculdade de Medicina da USP. Dentro dele, idealizei e coordeno a oficina Entre Laços, que conduz rodas de conversa voltadas a estudantes que carregam a exigência de serem impecáveis antes mesmo de saberem quem são. Também presto plantões psicológicos com os alunos, sustentando um espaço de escuta que atravessa o cursinho para além dos encontros marcados.
Escrevo a partir do que a clínica me ensina. Entre os textos publicados estão reflexões sobre suicídio na população trans e travesti, sobre o caminhar como experiência subjetiva, e sobre a transgressão como parte do ato analítico. Cada artigo nasce de uma pergunta que a prática clínica deixou em aberto.
ensaios entre clínica, literatura e cultura
Este é o espaço onde escrevo com mais liberdade e mais frequência: ensaios que cruzam psicanálise, cultura e a vida cotidiana, na tentativa de mostrar que a teoria mais rigorosa e a experiência mais comum não são estranhas uma à outra.
Uma leitura lacaniana do gozo que resiste a qualquer promessa de cura.
Magritte e o desencontro entre a palavra e a coisa.
Hesse e a impossibilidade de uma identidade una.
Psicólogo (CRP 06/214302) e psicanalista, com formação em Psicanálise e Psicopatologia Lacaniana pela PUC-PR e extensão em Práticas em Saúde Mental pela USP. Meu trabalho segue a orientação freudiana e lacaniana, sustentada por uma formação que entendo como disciplina permanente, não como etapa a concluir.
Participo continuamente de grupos de estudo freudo-lacanianos e de um cartel, dispositivo de trabalho da Escola Brasileira de Psicanálise voltado às formações do inconsciente.
Se alguma frase deste texto lhe soou familiar, se algo aqui tocou um lugar que você já sentia mas nunca havia conseguido nomear, talvez não seja coincidência. Talvez seja apenas o começo de uma escuta que já estava sendo procurada, antes mesmo de ter um nome.
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